Desempenho das pesquisas eleitorais no segundo turno

Alguns comentários sobre as predições eleitorais no segundo turno e sobre como interpretar pesquisas

Apesar das invariáveis críticas que os institutos de pesquisa recebem toda eleição (vide aqui, por exemplo)[1], neste segundo turno o desempenho deles, – ao menos o de alguns deles –, não deixou a desejar.

Como já havia postado no Twitter, o instituto Ibope, por exemplo, acertou, dentro da margem de erro (os 3 ou 4 tradicionais pontos para mais ou para menos), os resultados em 15 das 18 capitais onde realizou pesquisa entre os dias 25 e 28 de outubro. Nos três casos onde chutou a bola fora, os erros foram pequenos – caso de Porto Alegre, Florianópolis e Maceió. Apenas em uma capital, Aracaju, o Ibope errou o resultado da eleição, onde a previsão era de que o candidato do PSB, Valadares Filho, ficaria na frente de Edvaldo Nogueira, do PC do B, por 2% de votos válidos. Como a previsão já era de resultado apertado, e o instituto acertou o resultado dentro da margem, este é um caso residual entre as capitais pesquisadas.

Dois outros casos ilustram o desempenho dos institutos de pesquisa – agora incluindo Datafolha, Paraná Eleitoral e CP2. Os gráficos abaixo mostram o retrospecto de todas as pesquisas feitas no segundo turno no Rio de Janeiro, onde Crivella (PRB) enfretou o Freixo (PSOL), e em Belo Horizonte, onde Leite (PSDB) competiu contra Kalil (PHS), por estes institutos. Nos gráficos, cada ponto é a percentagem de intenção de votos (incluindo, portanto, não-válidos) de cada candidato estimada por cada pesquisa (em outras palavras, cada data de pesquisa, no eixo X, representa uma pesquisa eleitoral); a curva (ou linha) representa a tendência geral destas pesquisas, estimadas via LOESS; e as áreas mais claras ao redor das curvas representam os intervalos de confiança de 95%.

Duas coisas merecem comentários em relação a esses dados:

  • Tendências são mais importantes do que resultados exatos: as intenções de votos dos quatro candidatos variaram ao longo do segundo turno; no caso de BH, o resultado inclusive se inverte no meio da campanha. Como consequência, tentar estimar o resultado final de uma eleição dias antes dela se encerrar poderia nos levar a cometer erros grotescos. Por outro lado, ao examinarmos a evolução da intenção de votos de cada candidato, temos um quadro mais claro da dinâmica das campanhas. Por exemplo, Freixo teve menos tempo de TV e recursos no primeiro turno no Rio, mas, como é possível verificar, seu desempenho oscilou pouco no período todo, ressalva feita à pequena tendência de crescimento no final do segundo turno. Só por isso, já teríamos bons indicíos de que não teríamos grandes reviravoltas ali, já que nos 30 dias anteriores isto não ocorreu. Ao contrário, em BH a ultrapassagem de Kalil em meados de outubro já indicava um movimento maior, constante, e foi inclusive comentado na mídia como um cenário mais incerto.

  • Não se pode tomar o resultado de uma única pesquisa como indicativo do resultado final das eleições. Institutos de pesquisa fazem amostras diferentes, aplicam questionários em períodos e locais diferentes, usando metodologias e pessoal diferentes, e, apenas por isso, variações aleatórias (ruídos no meio do sinal que as pesquisas tentam detectar) são esperadas. Observando o gráfico de Belo Horizonte, isto fica evidente: algumas pesquisas, às vezes realizadas pouquíssimos dias antes ou depois de outras, são destoantes; e, o que é ainda mais problemático, quando dois candidatos aparecem muito próximos, como os dois concorrentes em BH, é difícil distinguir quem está na frente (caso também de Aracaju). Nestes casos, dois institutos diferentes podem atribuir a vitória a candidatos diferentes – mesmo que não exista má fé por parte deles. Cautela, enfim, é sempre necessária ao se projetar os resultados de uma eleiçao com base em pesquisas eleitorais.

De resto, cabe notar que pesquisas eleitorais, com todos os seus defeitos, são extremamente úteis. Quando bem interpretadas e tomadas em conjunto, podem nos dizer com bastante grau de certeza os resultados de uma eleição – vide o retrospecto do 538, nos EUA.

[1] Eu mesmo já critiquei, e ainda tenho ressalvas contra, as pesquisas eleitorais brasileiras por conta do uso de amostra por quotas. Um bom resumo do sistema, e uma crítica às margens de erro que os intitutos calculam para elas, pode ser visto aqui.

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Fernando Meireles
Postdoc in Political Science

Postdoctoral Fellow in Political Science at IESP-UERJ. Studying comparative politics and political methodology.